Wednesday, August 27, 2008



Pensamentos de João

Estávamos todos a volta da mesa. Ele tinha acabado de lavar os nossos pés. Surpreendeu-nos com a capacidade de humilhar-se a este ponto. Partiu o pão connosco. Comeu como em tantas outras vezes, mas naquele dia ele comparou o pão ao seu corpo que seria moído. Bebeu o vinho, partilhou connosco também e mais uma vez disse para recordarmos dele todas vezes que o bebêssemos! Falou de símbolo, e de Aliança Eterna. Oh! Que mistério! Ele estava sério, agora sei que estava pensativo, mas naquela altura eu ainda não entendia tudo que estava a passar. Nunca antes, nestes anos que estivemos juntos eu O senti tão próximo como naquela hora. Ele já havia nos ensinado tanto, mostrou-nos o sobrenatural, tocou-nos, importou-se connosco. Deu-nos valor. Mas agora! Parecíamos tão íntimos, tão próximos. Ele nos chamou de amigos. Vindo de sua boca era como um cântico. E ele falava baixinho como se quisesse que nos aproximássemos mais para ouvi-Lo. Ele nos falou de amor. Mas não um amor qualquer. Será que eu seria capaz, pensei? Mas Ele mostrou o segredo, disse para nos agarrarmos a Ele. A Videira. Engraçado, nunca pensei na videira desta maneira, mas é verdade. Só os ramos que estão firmes na árvore é que produzem frutos. Frutos doces, saborosos, que se transformam em vinho... vinho novo. Pois é, ele falara do Vinho Novo! Ah! O meu Mestre! Quanta sabedoria! Ele prometeu o Espírito também. Tenho que confessar que eu não entendi muito bem naquele momento. Um Espírito que viria para convencer o mundo do pecado da justiça e do juízo. Um Espírito que nos guiaria e nos consolaria! Era muito para eu entender, mas eu cria. Algo dentro de mim estava a mudar, embora eu não soubesse bem o que era e nem o horror que seria as horas seguintes, eu sabia que eu nunca mais seria o mesmo homem. E não fui.
Vê-lo pregado naquela cruz. Maldito por mim! Porque era assim que consideravam os que eram pregados numa cruz. E Ele, por amor a mim, se fez maldição. E nós fomos capazes de deixá-lo só. Mas o mestre sabia. Não havia ninguém que nos conhecesse tão bem. Ainda me lembro do amor que vi em seus olhos quando o levaram. Como me entristeço ao lembrar!
Mas o Mestre não ficou por ali. Ressurgiu e eu o vi. Todos nós o vimos. Quando o reencontrei da primeira vez, a Páscoa então fez sentido para mim. Libertação! Muito maior do que eu podia imaginar.
Naquela manhã depois de tudo que havia passado, depois de vermos o nosso mestre partir para o Pai como Ele havia dito que faria, eu entendi. Mais tarde, o Espírito como línguas de fogo caiu sobre nossas cabeças. E falamos em línguas que nunca tínhamos aprendido e o maior de tudo isso é que eu vi ali na minha frente homens e mulheres se rendendo a verdade, convencidos do seu pecado, da justiça que mereciam e do juízo que viria para o mundo. Um milagre, quase três mil de uma só vez. E eu senti um Consolo. A saudade que eu sentia do Mestre e a Sua ausência foi preenchida. Afinal Ele estava de volta. Era ele outra vez. Consolo, o mesmo que sinto agora aqui vendo as coisas que irão acontecer....

baseado em João Cap. 15 a 21 e Actos 2 e João na Ilha de Patmos


Arlete Castro - 04/2006

1 comentários:

_SunFlower_ said...

"Era ele outra vez." Lindo Arlete... =) Sensível como sempre =)

Gosto muito de ti =)

Beijinhos!!